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Por que as festas de fim de ano aumentam o risco cardíaco?

Entenda!

As ceias fartas, o consumo excessivo de álcool e a quebra da rotina com medicamentos fazem parte das tradições de fim de ano. No entanto, esse conjunto de excessos cria o cenário ideal para o surgimento da chamada Síndrome do Coração de Feriado, condição que pode desencadear arritmias, fibrilação atrial e até infarto — inclusive em pessoas sem histórico prévio de doenças cardíacas.

De acordo com especialistas, o período entre Natal e Réveillon concentra picos preocupantes de internações. Estudos indicam que as hospitalizações por infarto podem aumentar em até 37% nessa época do ano.

O que é a Síndrome do Coração de Feriado?

A Síndrome do Coração de Feriado está associada, principalmente, ao consumo exagerado de álcool em curto período de tempo, somado a refeições ricas em gordura e sal. Segundo a cardiologista Fabiana Hanna Rached, do Incor (HCFMUSP), o problema surge mesmo em pessoas sem diagnóstico prévio, justamente por se tratar de um estresse agudo ao organismo.

Além disso, a síndrome pode provocar fibrilação atrial, uma arritmia caracterizada por batimentos cardíacos irregulares e acelerados, que aumenta o risco de AVC e insuficiência cardíaca.

Estudos apontam aumento expressivo de infartos no Natal

Um levantamento sueco publicado em 2018 analisou 283 mil casos de infarto do miocárdio registrados ao longo de 15 anos. O estudo revelou que o risco de infarto na véspera de Natal é 37% maior em comparação com outras datas.

Além disso, o horário mais crítico no dia 24 de dezembro foi identificado às 22h, afetando principalmente pessoas com mais de 75 anos e pacientes com histórico de diabetes ou doença coronariana.

Curiosamente, outras datas festivas, como a Páscoa ou grandes eventos esportivos, não apresentaram o mesmo aumento de risco, o que reforça a relação direta com os hábitos típicos do Natal.

Por que as festas aumentam o risco cardíaco?

Segundo os pesquisadores, o pico de eventos cardiovasculares não é aleatório. Pelo contrário, ele está associado a fatores externos comuns às festas de fim de ano, como:

  • estresse emocional agudo (ansiedade, conflitos familiares e pressão social);
  • consumo excessivo de álcool;
  • refeições com alta carga de gorduras saturadas e sal;
  • calor intenso e desidratação;
  • falhas no uso de medicamentos contínuos.

Nesse contexto, a cardiologista Fabiana Rached explica que o álcool interfere diretamente no sistema elétrico do coração, ativando o sistema nervoso simpático e desregulando os eletrólitos do organismo, o que favorece arritmias perigosas.

Atenção redobrada para quem já tem doença cardíaca

Para pacientes com diagnóstico ou suspeita de problemas no coração, os cuidados devem ser ainda mais rigorosos. O cardiologista Firmino Haag, coordenador da Cardiologia do Hospital Albert Sabin, alerta que interromper ou atrasar medicações durante as festas pode ser um fator determinante para complicações graves.

Além disso, pessoas com hipertensão, diabetes, dislipidemia, obesidade ou histórico de arritmias estão entre os grupos mais vulneráveis nesse período.

Novas diretrizes reforçam limites mais rígidos

As diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), atualizadas em setembro de 2025, estabeleceram metas mais rígidas para controle do colesterol LDL e da pressão arterial. O objetivo é identificar precocemente a desestabilização de pacientes que já estavam próximos dos limites considerados seguros.

Segundo o médico Fabio Taniguchi, diretor do serviço de cirurgia cardiovascular do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, a atualização está alinhada às recomendações internacionais. Para ele, evitar excessos e seguir as orientações médicas é a melhor estratégia preventiva.

Álcool: não existe consumo seguro

Taniguchi destaca que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), não existe nível seguro de consumo de álcool. Em julho de 2025, a American Heart Association (AHA) reforçou os riscos do consumo excessivo em curto prazo, especialmente para a saúde cardiovascular.

Ainda assim, o problema se agrava quando o álcool é combinado com energéticos, que contêm cafeína e taurina, substâncias que potencializam os efeitos nocivos sobre o coração.

Como reduzir os riscos durante as festas

Apesar do cenário preocupante, algumas atitudes simples podem reduzir significativamente os riscos:

  • moderar ou evitar o consumo de álcool;
  • intercalar bebidas alcoólicas com água;
  • priorizar alimentos assados e magros, como peixes e vegetais;
  • evitar embutidos, frituras e excesso de sal;
  • fugir de bebidas alcoólicas com energéticos;
  • manter boa hidratação e noites adequadas de sono;
  • evitar exposição prolongada ao sol e ambientes muito quentes.

No entanto, para quem tem histórico de arritmia, hipertensão ou doença coronariana, a recomendação é ainda mais restritiva.

Monitoramento e prevenção fazem a diferença

Por fim, Haag reforça a importância do acompanhamento durante esse período. Monitorar a pressão arterial em casa, observar alterações na frequência cardíaca e manter a prática regular de atividade física são medidas essenciais.

“A prevenção começa na rotina. Pequenas escolhas durante as festas podem evitar grandes problemas depois”, conclui o cardiologista.

Fonte: Folha de São Paulo